sexta-feira, 28 de março de 2014

O problema de Sócrates-por Nietzsche


 
Em todos os tempos os sábios fizeram o mesmo juízo da vida:

ela não vale nada... Sempre em toda parte ouvimos sair de suas

bocas a mesma palavra — uma palavra repleta de dúvida,

repleta de melancolia, repleta de cansaço da vida, repleta de

resistência contra a vida. Mesmo Sócrates disse ao morrer.

"Viver — é estar há muito tempo enfermo: devo um galo a

Esculápio libertador". Mesmo Sócrates tivera o bastante disso.

— O que isso demonstra? O que isso mostra? Outrora se teria

dito ( — oh, e se disse, e muito alto, e nossos pessimistas em

primeiro lugar!) : "É necessário que haja aqui algo de

verdadeiro! O consensus sapientium demonstra a verdade". —

Falamos assim ainda hoje? Podemos? "É preciso em todos os

casos que haja aqui alguma coisa de enfermo" eis nossa

resposta: esses sábios entre os sábios de todos os tempos, seria

mister primeiramente vê-los de perto! Talvez não estivessem

firmes sobre suas pernas, talvez fossem retardatários,

vacilantes, decadentes? A sabedoria quem sabe aparecesse

sobre a Terra como um corvo, ao qual um ligeiro odor de

carniça entusiasma? ...


Essa irreverência de considerar os grandes sábios como tipos

de decadência nasce em mim precisamente num caso em que o

preconceito letrado e iletrado se opõe com maior força:

reconheci em Sócrates e em Platão sintomas de decadência,

instrumentos da decomposição grega, pseudo-gregos, antigregos

(A Origem da Tragédia, 1872). Esse consensus

sapientium — sempre o compreendi claramente — não prova,

de maneira alguma, que os sábios tivessem razão naquilo em

que concordavam. Prova isto sim que eles, esses sábios entre os

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sábios, mantinham entre si algum acordo fisiológico, para

assumirem diante da vida essa mesma atitude negativa — para

serem tidos por tomá-la. julgamentos, avaliações da vida, a

favor ou contra, não podem, em última instância, jamais ser

verdadeiros: o único valor que apresentam é o de serem

sintomas e só como sintomas merecem ser levados em

consideração; em si tais julgamentos não passam de idiotices. É

necessário portanto estender a mão para se poder apreender

essa finesse extraordinária de que o valor da vida não pode ser

apreciado. Não pode ser apreciado por um vivo, porque é parte

e até objeto de litígio, e não juiz; nem pode ser apreciado por

um morto, por outras razões. Tratando-se dum filósofo, ver um

problema no valor da vida constitui uma objeção contra ele

mesmo, constitui uma falta de discernimento e faz com que se

ponha em dúvida sua sabedoria. — Como? Todos esses grandes

sábios não só teriam sido decadentes, mas, além disso, pode ser

que nem fossem sequer sábios? De minha parte, volto ao

problema de Sócrates.


Sócrates pertencia, por sua origem, ao populacho. Sabe-se,

percebe-se que era feio. A feiúra, objeção em si era quase uma

refutação entre os gregos. E, em suma, era grego Sócrates? A

feiúra é, muitas vezes, sinal duma evolução entravada, pelo

cruzamento, ou então o sinal duma evolução descendente. Os

antropólogos que se dedicam à criminologia nos dizem que o

tipo criminoso é feio; monstrum in fronte, monstrum in animo.

E o criminoso é um decadente. Sócrates era um tipo criminoso?

Pelo menos não parece contradizê-lo aquele famoso juízo

fisionômico que chocou todos os amigos de Sócrates. De

passagem por Atenas, um estrangeiro fisionomista disse

frontalmente a Sócrates que ele era um monstro que ocultava

todos os vícios e maus desejos. Sócrates respondeu

simplesmente: "Conheces-me, meu senhor".
 
  O Crepúsculo dos ídolos ou o a filosofia a golpes de martelo

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