domingo, 30 de março de 2014

O "fazer artístico" e a inspiração



 
Pareyson posiciona a atividade artística entre as idéias de “Forma” e

“Formatividade”, definindo a Arte como “Fazer, Exprimir e Conhecer”; concepções que não devem
ser “absolutizadas.” Ana Mae Barbosa posiciona o conteúdo da Arte nas instâncias da Abordagem

Triangular (Fazer, Ler e Contextualizar); sistematiza, aplica e divulga essa proposta para o ensino

da Arte, difundindo a necessidade da leitura crítica de imagens, a partir dos anos 80. Ambos tratam a Arte como área de conhecimento específica e sem a situarem à parte do âmbito social.

Se Pareyson apresenta uma Teoria Estética, que auxilia a especificação do campo artístico,

Barbosa atua na Educação brasileira e, fundamentada em uma abordagem histórica, revisa a Arte como disciplina, entre a teoria e a práxis, melhorando qualitativamente o ensino. Suas teorias, dialogicamente relacionadas, nos trazem uma re-significação sobre Ensino/aprendizagem de Arte.

No livro Reflexões sobre a Arte, Alfredo Bosi menciona que Pareyson “considera como decisivos do processo artístico três momentos que podem dar-se simultaneamente: o fazer, o conhecer e o exprimir” (2002, p.8); e no percurso dos capítulos de seu livro, Bosi perpassa a discussão sobre a Arte por esses três caminhos. Conforme Pareyson

(2001, p.22) a tríplice instância em questão sintetiza as “definições mais conhecidas da arte, recorrentes na história do pensamento”, e que “ora se contrapõem e se excluem uma às outras, ora, pelo contrário, aliam-se e combinam-se de várias maneiras.” De onde podemos depreender uma movimentação dialética.

Pareyson frisa que a caracterização da Arte como “fazer”, ou seja, referente ao “aspecto executivo, fabril, manual”, era predominante no pensamento da Antiguidade, sobre o qual pairava, entretanto, uma contradição: mesmo ante a existência da “distinção entre arte liberal e arte servil”, considerava-se inferiores, “artes grandes, como as plásticas e figurativas”, exaltando-se outras formas de Arte, nas quais o aspecto “executivo e manual” – o então parâmetro caracterizador da Arte – não se fazia evidente.

(PAREYSON, 2001, p.21) Essas dicotomias e distinções, que delineiam o status das Artes no pensamento da Antiguidade, são remontadas no contexto brasileiro, no que, para Barbosa (2006, p.22),

os Jesuítas “separavam, a exemplo de Platão, as artes liberais dos ofícios manuais ou mecânicos, próprios dos trabalhadores escravos.” Barbosa nos diz que as primeiras influências educacionais no Brasil decorrem da atuação dos Jesuítas, no Período

Colonial, e o sistema educacional empreendido pelos mesmos se fundamentava na

valorização dos estudos “retóricos e literários”, ficando subjugados os ofícios artísticos,

ou seja, o aspecto de técnica, de artesania.

Os jesuítas anti-reformistas, “restauradores do dogma e da autoridade”,

inspirados na filosofia escolástica, modelavam suas regras pedagógicas

em contrafações sucessivas da Paideia, já deturpada desde a época

romana, quando se transformou no único ensino, embora tivesse sido

idealizada para funcionar como primeiros passos para novos estudos

(BARBOSA, 2006, p.22).

Para Barbosa (2006, p.21-22) o aspecto tradicionalista da ação dos Jesuítas, com seu

sistema educacional “bem organizado” e o propósito missionário, fizeram com que as

lides no ensino, em seu empreendimento, fossem vigorosas e, uma vez estabelecida a

prática preferencial dos estudos literários na educação formal, as dicotomias idéia/fazer e

Arte liberal/Arte servil, ficam estabelecidas, sem posteriores reformas educacionais que

conseguissem significativas mudanças. Desse contexto colonial é que nasce, no Brasil, a

cisão entre erudito e popular, espelhada tanto na Educação, quanto no campo artístico.

Com o passar do tempo, erudito e popular, também idéia e fazer, vão se relacionando e

se transformando de formas diversas, mas são mantidas essas raízes, ou resquícios

dicotômicos, colonialistas.

Conforme Pareyson (2001, p.21), se no modelo da Antigüidade evidencia-se o fazer, no

âmbito do Romantismo, prevalece a idéia de Arte como “exprimir”, ou como “expressão”,

na qual a idéia de beleza abandona a “adequação a um modelo ou a um cânone

externo”, e passa a ser concebida “na íntima coerência das figuras artísticas com o

sentimento que as anima e suscita.” O autor também afirma que, em grande medida, no

“decurso do pensamento ocidental”, ocorre a definição de Arte como conhecimento, ou

seja, como “reveladora da verdadeira realidade das coisas”:

como visão, contemplação, em que o aspecto executivo e exteriorizador

é secundário, senão supérfluo, entendendo-a ora como a forma

suprema, ora como a forma ínfima do conhecimento, mas em todo caso,

como visão da realidade: ou da realidade sensível na sua plena evidência, ou de uma realidade espiritual mais íntima, profunda e

emblemática (PAREYSON, 2001, p.22). Pareyson reconhece como fundamental tanto a especificação da Arte, quanto sua

extensão “a todos os campos da atividade humana”; reconhece a diferença entre o “fazer

arte” e o “fazer com arte”, e defende a idéia de “satisfazê-las juntas”, trata-se de oferecer

à Arte “um reino próprio, ainda que estreitamente unido com todo o resto”, e esclarece:

“Sem formatividade, nenhuma atividade é bem sucedida no seu intento. Em toda a obra

humana está presente um lado inventivo e inovador como primeira condição de toda

realização.” (PAREYSON, 2001, p.29-32) Nesse caso, o autor utiliza o sentido de “obras

bem sucedidas no seu gênero”, cita exemplificações da “arte no mundo da técnica”, a

“arte do pensar”, a “arte de viver”, pois “sempre e em qualquer circunstância trata-se de

‘fazer com arte’, isto é, de urgir para o êxito daquele determinado ‘fazer’ que está

presente em toda operosidade humana”. E, sobre a Arte “propriamente dita”, Pareyson

esclarece consistir na:

formatividade, exercitada, não mais tendo em vista outros fins, mas por

si mesma. (...) uma obra que presume e aceita valer só como forma (...)

 

Trechos de : ANA MAE BARBOSA E LUIGI PAREYSON – UM DIÁLOGO EM PROL DE

“RE-SIGNIFICAÇÕES” SOBRE ENSINO/APRENDIZAGEM DE ARTES VISUAIS

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